Como os materiais podem auxiliar a redução da proliferação do coronavírus

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Como os materiais podem auxiliar a redução da proliferação do coronavírus

Desinfecção das ruas contra o coronavírus

Por Wagner Anacleto Pinheiro

Na atual pandemia causada pelo novo coronavírus (COVID-19 — Coronavirus disease), um aspecto bastante importante é entender como o vírus e a sua disseminação podem ser combatidos.

As medidas de higiene, como têm sido amplamente divulgado, têm um papel fundamental no controle da propagação da doença. Vacinas também têm sido pesquisadas, e espera-se que em breve estejam disponíveis para a população em geral.

Mas um aspecto também importante e há algum tempo pesquisado é a influência dos diferentes materiais nesse processo de disseminação.

A disseminação do coronavírus em diferentes superfícies

Em um recente estudo sobre a estabilidade do vírus da COVID-19 no ar e em diferentes superfícies (1), os autores destacaram que a presença do novo coronavírus foi detectada em até:

  • 72 horas após sua exposição sobre plástico (polipropileno);
  • 48 horas sobre aço inoxidável (tipo 304);
  • 24 horas sobre papelão;
  • 4 horas sobre cobre.

Por meio desse estudo, pode-se inferir sobre a propagação do vírus por meio do contato com materiais comuns no nosso dia a dia e que a estabilidade do vírus é, em ordem, maior sobre plástico, aço inoxidável, papelão e, por fim, menor sobre cobre.

Por que há diferença de tempo de vida do vírus de acordo com os diferentes materiais?

Conforme detalhado em outro estudo, de Warnes e colaboradores (2), em uma pesquisa sobre um outro tipo de coronavírus, o 229E, comum a humanos, cujas conclusões poderiam ser estendidas ao novo Coronavírus, o elemento cobre é um efetivo meio para combate ao coronavírus.

Isso acontece por causa da atividade antiviral do cobre. Isto é, o grau de inativação viral é maior quanto maior for o percentual de cobre na liga metálica, como latão ou liga cobre-níquel.

Nesse estudo, o tempo para inativação da carga viral reduziu de cerca de 5 dias considerando superfícies que não contêm cobre (como teflon, vidro, PVC e aço inoxidável; ou de 3 dias para borracha de silicone) para tempos inferiores, em geral, a 60 minutos em ligas contendo cobre.

Foi possível identificar não apenas esse comportamento antiviral do cobre, mas também um efeito antimicrobiano mais amplo, estendendo-se a vírus, bactérias, fungos e outros patógenos.

O cobre para controle e inativação viral

O mecanismo de ação do cobre sobre o coronavírus é complexo e pode ser resumido nas seguintes etapas:

  • liberação de íons cobre nas superfícies de cobre e ligas de cobre e geração de espécies reativas de oxigênio, resultando em um “suicídio metabólico”;
  • inativação do coronavírus, resultando na fragmentação do genoma viral, o que garante que a inativação é irreversível;
  • alterações morfológicas das partículas de vírus, levando à fragmentação e posterior desintegração.

Conclusão

Como conclusão, esses e outros estudos têm indicado que o cobre pode ser um elemento importante no controle e na inativação viral.

Uma sugestão seria a incorporação desse elemento na composição dos demais materiais que estão expostos ao vírus. Outra proposta seria a substituição dos materiais por cobre e suas ligas em itens com os quais mantemos contato frequente, como maçanetas ou corrimãos, por exemplo.  

Quer saber mais sobre o comportamento dos materiais? Indicamos o livro “Fundamentos da Ciência e Engenharia de Materiais – Uma Abordagem Integrada“, do Callister.

Sobre o autor

Wagner Anacleto Pinheiro possui graduação em Engenharia Metalúrgica no Instituto Militar de Engenharia (1998), mestrado em Ciência dos Materiais no IME (2004), doutorado em Ciência dos Materiais no IME (2010) e pós-doutorado na Universidade de Manchester (2016). Tem experiência na área de Engenharia de Materiais e Metalúrgica, atuando principalmente nos seguintes temas: células solares, grafeno, técnicas de deposição de filmes finos, materiais compósitos e recobrimentos. Professor Nomeado e Coordenador do Programa de Pós-graduação em Ciências dos Materiais do IME.  

Referências Bibliográficas

(1) Van Doremalen e colaboradores, Aerosol and Surface Stability of SARS-CoV-2 as Compared with SARS-CoV-1, The New England Journal of Medicine, Mar 2020, DOI: 10.1056/NEJMc2004973.

(2) Warnes e colaboradores, Human Coronavirus 229E Remains Infectious on Common Touch Surface Materials, mBio Nov 2015, DOI: 10.1128/mBio.01697-15.

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1 Comment

  1. Avatar Gabriel Burlandy Mota de Melo disse:

    Prezado professor Wagner. Ótima escrita! Elucida muitas dúvidas e orienta quais são as formas de contágio indireto mais comuns, que muitas vezes passam despercebidas.

    Parabéns!

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