Desabamento do Edifício Andrea: a importância das normas técnicas

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Desabamento do Edifício Andrea: a importância das normas técnicas

Acidentes como o desabamento do Edifício Andrea, em Fortaleza, mostram a importância do atendimento às normas técnicas pelos profissionais da construção civil e a responsabilidade de todos os agentes intervenientes, como órgãos fiscalizadores, poder público e, também, usuários.

O atendimento às normas técnicas

Primeiramente, podemos destacar a importância da norma NBR 5674:2015 – Manutenção de Edificações –  Requisitos para o Sistema de Gestão de Manutenção, direcionada aos proprietários ou síndicos dos imóveis. Essa norma orienta como prevenir a perda de desempenho decorrente da degradação dos seus sistemas, elementos ou componentes.

No caso de edificações mais antigas, é necessário se adequar ou criar programas de manutenção. Esse era o caso do Edifício Andrea, que apresentava registro em cartório desde 1982.

Nesse contexto, também há a NBR 16.280:2015 – Reforma em Edificações – Sistema de Gestão de Reformas, que orienta e estabelece como devem ser o controle de processos, projetos, execução e segurança das intervenções. Destacam-se ainda necessidade de adoção de meios que protejam os usuários das edificações de eventuais danos ou prejuízos; prevenção de perda de desempenho decorrente das ações de intervenção gerais ou pontuais; segurança da edificação, do entorno e de seus usuários. No acidente em questão, os relatos mostram a inobservância dessas questões.

Ressalta-se que o elevado nível de deterioração da estrutura do Edifício Andrea, divulgado nas reportagens, demonstra a inexistência ou ineficiência dos planos de manutenção preventiva por parte do condomínio, que foram inadequados ou insuficientes na preservação de sua integridade estrutural.

Também temos que observar que a própria cidade de Fortaleza possui uma lei que dispõe sobre a obrigatoriedade de vistoria técnica, manutenção preventiva e periódica das edificações.

Manutenção e intervenção

A manutenção e a intervenção planejada no Edifício Andrea não consideraram a gravidade das patologias existentes. Também não foram observadas a adoção:

  • dos padrões recomendados de segurança, como aviso para evacuação da edificação;
  • de um plano emergencial;
  • de medidas simples, como o escoramento do próprio prédio e seu monitoramento.

Relacionado às patologias dos edifícios em concreto armado, sabe-se que as corrosões de armadura são muito frequentes, especialmente em regiões litorâneas. Essas patologias são muito agressivas devido à presença de íons cloretos no ar e nas névoas salinas.

Em Fortaleza, um estudo recente coordenado pela Universidade Federal do Ceará (UFC) desenvolveu uma proposta de classificação da agressividade do ar atmosférico para as diferentes regiões da cidade, com o propósito de nortear os profissionais no desenvolvimento de projetos de estruturas em concreto armado.

Com base nos resultados obtidos, a região da praia de Iracema, local próximo ao acidente, apresenta agressividade ambiental variando de classe III (Muito Forte) à classe II (Moderada). Essa agressividade certamente potencializou a perda de desempenho e durabilidade da estrutura do Edifício Andrea, além dos fatores já mencionados em relação à manutenção predial. Ainda não podem ser descartados eventuais problemas de projeto e na execução da obra.

Processo de corrosão

Com foco nesse tipo de patologia, é importante entender que a entrada de agentes agressivos, como os íons cloretos, rompe a proteção do aço e inicia-se um processo de corrosão. As escamações do aço são expansivas e levam o concreto à fissuração por aumento da tensão interna. Em casos mais críticos, a perda de massa do aço e a fissuração excessiva do concreto podem levar a estrutura ao colapso.

Existem diferenças entre o desabamento do Edifício Palace II, na Barra da Tijuca (RJ), com o caso em questão. Embora as causas possam ser as mesmas (ou seja, corrosão da armadura por exposição da estrutura de concreto armado aos íons cloretos), no caso do Rio de Janeiro, foi mencionado que esses íons estavam presentes na areia usada na produção do concreto, enquanto que, no Edifício Andrea, provavelmente a origem desse agente agressivo foi externa.

Para que ocorra esse processo de corrosão, é importante entender que, primeiramente, há necessidade da despassivação da armadura, pois o ambiente alcalino do concreto protege o aço, além de haver a formação de um filme protetor sobre sua superfície, composto essencialmente de hidróxido de cálcio.

Esse filme protetor é atacado pelos íons cloretos e, assim, se inicia um processo de corrosão por formação de uma pilha galvânica. Para melhor proteção da armadura, também é importante pensar na tecnologia dos concretos e seus materiais constituintes, pois ele atua também como uma barreira mecânica à percolação dos agentes agressivos.

Nesse sentido, é importante o uso de aditivos para redução da relação água/cimento e consequente diminuição da porosidade; uso de adições minerais para aumento da compacidade; e uso também de fibras para prevenção de fissuras.

É importante, além do entendimento desse processo, também associá-lo às recomendações das normas a seguir:

  • NBR 6.118:2014 – Projeto de estruturas de concreto – Procedimento.
  • NBR 12.655 – Concreto de cimento Portland – Preparo, controle, recebimento e aceitação – Procedimento.
  • NBR 15.575 – Edificações habitacionais – Desempenho.

Reparos da estrutura

No que se refere aos reparos de uma estrutura, no casos mais simples de corrosão de armadura, em que não há comprometimento estrutural, recomenda-se: 

  • a delimitação da área a ser reparada; 
  • escarificação do concreto solto e deteriorado; 
  • limpeza da corrosão, que pode ser feito de forma manual ou com jato de água; 
  • execução de pintura protetiva na superfície do metal; 
  • aplicação uma nova ponte de aderência entre o aço e o revestimento; 
  • preenchimento com argamassa de reparo; 
  • acabamento da superfície.

Em casos críticos com elevado nível de deterioração da estrutura e risco iminente, como era a questão do Edifício Andrea, é imprescindível o emprego de técnicas mais elaboradas na inspeção e não apenas se limitar a uma simples análise visual e subjetiva.

Destacamos a importância da adoção de análises não destrutivas, que podem ser simples, como o uso de ultrassom, até modernas técnicas, como a tomografia. Antes da intervenção, é preciso realizar um diagnóstico preciso para verificar a efetividade das possíveis atividades de manutenção e reparo, as zonas críticas e os riscos envolvidos.

Cabe também mencionar que, em casos extremos, a estrutura pode até ser condenada por não haver meios seguros de recuperá-la, entendendo que toda edificação possui sua vida útil. As manutenções nem sempre garantem uma inteira recuperação de seu desempenho.

Para estruturas de concreto armado com danos estruturais graves, os tradicionais materiais de construção podem não ser suficientes na solução dos problemas. Nessas situações, recomenda-se verificar a possibilidade de emprego de materiais alternativos, como reforço da estrutura por meio de fibras de carbono ou aramida. Por exemplo, um simples envelopamento de um pilar por meio de compósitos CFRP (Polímeros Reforçados com Fibras de Carbono) poderia aumentar sua capacidade portante por confinamento, sem a remoção completa do concreto fissurado.

Destaca-se que, no caso do Edifício Andrea, os vídeos apresentados pela imprensa mostram que toda estrutura de concreto estava com elevado grau de fissuração, com regiões praticamente sendo desagregadas, evidenciando que o edifício apresentava um elevado risco de colapso. Portanto, todas as questões acima mencionadas poderiam ter sido adotadas.

Conclui-se, então, que um correto diagnóstico das patologias é importante para o estabelecimento de plano de ação e intervenção. Pode ser desde a condenação da estrutura até a recuperação de seu desempenho, desde de que atenda a todos padrões e requisitos de segurança bastante consolidados e difundidos pelas normas brasileiras.

Carlos Marmorato
Carlos Marmorato
Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo Universidade Estadual de Campinas. Possui graduação em Engenharia Civil pela Universidade de São Paulo (1995), graduação em Administração de Empresas pela Associação de Escolas Reunidas (1993), mestrado em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de São Paulo (1999), doutorado em Ciência e Engenharia de Materiais - Instituto de Física de São Carlos (2005), pós-doutorado-I em Materiais de Construção - FZEA/USP, pós-doutorado-II em sistema construtivo LSF - IAU/USP. Atualmente é Professor Doutor da Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP. Tem experiência na área de Engenharia Civil, com ênfase em Materiais, Componentes de Construção e Light Steel Frame, atuando principalmente nos seguintes temas: compósitos, fibrocimento, geotêxteis, argamassas especiais, polímeros, pozolanas e concretos especiais.

4 Comments

  1. Avatar thiago fomes disse:

    Parabéns pela matéria, que demonstra a importância da adoção das normas técnicas e base técnica para execução de serviços.

  2. Avatar Thiago Gomes disse:

    Parabéns pelo artigo que demonstra a importância do seguimento das normas técnicas.

  3. Avatar Alice Maria disse:

    Parabéns dr Carlos pelo seu artigo . Pela sua competência 👏👏👏👏

  4. Avatar Flavio Gomes Junior disse:

    Excelentes obsrvações. Enquanto não tivermos a cultura da prevenção , da manutenção, e do respeito às normas, em nosso país , outros desastres continuarão acontecendo.

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