OPINIÃO: Por que o Brasil vai mal no PISA?

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OPINIÃO: Por que o Brasil vai mal no PISA?

PISA 2018: o significado dos resultados obtidos pelos estudantes brasileiros vai muito além de porcentagens e posições em um ranking internacional

Brasil no PISA: por que o país tem tido resultados ruins? Neste texto, faço uma breve análise dos possíveis motivos.

PISA: o que é?

No último dia 3 de dezembro, foram divulgados os resultados da edição 2018 do PISA – Programa Internacional de Avaliação de Alunos (do inglês Programme for International Student Assessment). O exame é coordenado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), com o objetivo de produzir indicadores que contribuam para a discussão da qualidade da educação nos países participantes, de modo a subsidiar políticas de melhoria do ensino básico.

O PISA é uma iniciativa mundial destinado a avaliar sistemas educacionais medindo o desempenho escolar de alunos de 15 anos em testes de Matemática, Ciências e Leitura. As médias dos resultados desses testes tornaram-se o indicador para que cada país saiba como evolui a sua educação e como se posiciona em relação a outros países participantes. O exame teve início no ano 2000 e tem sido repetido, desde então, a cada três anos.

A avaliação procura verificar até que ponto as escolas de cada país participante estão preparando seus jovens para exercer o papel de cidadãos na sociedade contemporânea.

Brasil no PISA: análise do resultados em 2018

Os resultados do PISA 2018 apontam que 68% dos estudantes brasileiros não souberam os conhecimentos básicos de Matemática, 50,1% apresentaram baixo desempenho em Leitura e 55,3% baixo desempenho em Ciências.

Contudo, de acordo com a análise* desses dados, ao separar as redes de ensino público e ensino privado, o Brasil apresenta realidades muito distintas. De modo geral, essa análise aponta que escolas privadas de elite do Brasil superam a Finlândia no Pisa e que a rede pública vai pior do que o Peru.

*avaliação encomendada pelo Jornal O Estado de São Paulo a um instituto que pesquisa sobre dados de educação (leia aqui).

Nesse cenário, qual seria uma possível reflexão a ser feita em relação a esses dados?

Em primeiro lugar, podemos concluir que, no Brasil, os dados do PISA têm de ser usados com extrema precaução na ação pública. A desigualdade entre os sistemas privado e público de escolas de Educação Básica é enorme e a situação das escolas públicas, dramática em alguns estados brasileiros, é ainda mais delicada do que as porcentagens e as posições do ranking podem revelar.

Em segundo lugar, apesar da tão almejada massificação da educação no Brasil, infelizmente, o maior número de crianças na escola pública não foi acompanhado pelo quesito qualidade nos processos de ensino e de aprendizagem.

A universalização do acesso à escola veio acompanhada de uma grande dificuldade de se conseguir professores habilitados, especialmente na área das Ciências Exatas. Assim, chegam às escolas professores cada vez menos preparados para a função.

Exemplo: o ensino da Matemática no país

Particularmente falando do ensino de Matemática nos anos iniciais do Ensino Fundamental, por muitas vezes este não é tão valorizado. Os professores priorizam os processos de alfabetização, uma vez que boa parte deles tem formação deficitária em Matemática. Essa formação não ocorre nos cursos de licenciatura de Matemática, mas, prioritariamente, nos cursos de Pedagogia.

Já nos anos finais do Ensino Fundamental, em algumas regiões do Brasil, outras aberrações acontecem. Por exemplo, licenciados em Biologia e Matemática prestam concurso público para uma área comum. Assim, licenciados em Biologia são colocados diante do desafio de ensinar Matemática, algo que não sabem, a crianças em seus estágios mais importantes de desenvolvimento do pensamento lógico-matemático. O mesmo ocorre para licenciados em Matemática, quando precisam ensinar Ciências.

Análise de por que o Brasil vai mal no Pisa

Assim, resultados como os obtidos no PISA 2018 para Matemática e Ciências não são inesperados.

Investimento na formação de professores

Em uma análise um tanto quanto superficial, é certo que uma providência que precisaria ser tomada imediatamente seria de investir na formação dos professores.

Um esforço muito grande, mas possível, seria necessário para atrair os melhores alunos para os cursos de formação de professores e para sanar o déficit de formação de milhares de professores em serviço.

Devolver prestígio à profissão, aumentar os salários, investir na formação continuada e avaliações constantes atreladas à remuneração, podem ser algumas ações que, a médio-longo prazo, impactariam os resultados do PISA e trariam mais prosperidade ao Brasil.

***
Conheça aqui o livro da autora: Uma Nova Sala de Aula é Possível – Aprendizagem Ativa na Educação em Engenharia.

Educação em Engenharia
Valquíria Villas-Boas
Valquíria Villas-Boas
É Diretora Acadêmica em exercício da Associação Brasileira de Educação em Engenharia (ABENGE) e coordenadora do Grupo de Trabalho em Aprendizagem Ativa na Educação em Engenharia da mesma instituição. É graduada em bacharelado em Física pela USP, mestra em Física da Matéria Condensada e doutora em Ciências também pela USP. É professora titular da Área do Conhecimento de Ciências Exatas e Engenharias da UCS. Ministra disciplinas básicas de Física para os cursos de Engenharia, disciplinas específicas do curso de Licenciatura em Física e as disciplinas Fundamentos de Aprendizagem Ativa, Experimentação no Ensino de Ciências e Matemática e Projetos Interdisciplinares no Programa de Pós-Graduação em Ensino de Ciências e Matemática. Tem trabalhado nas áreas de Aprendizagem Ativa para o Ensino de Física e de Engenharia, de Formação Profissional de Professores de Ensino Superior e de Formação Continuada de Professores de Ciências e Matemática.

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